segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Crise econômica deve ser ainda maior em 2016

Especialistas analisam como será o desempenho de atividade econômica, inflação, emprego e câmbio no próximo ano.

 

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Cadu Caldas, Especial ZH,
Com o cenário turbulento, é difícil fazer uma previsão segura de quando a economia de fato deixará de piorar.
A guerra política instalada com a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff tirou de vez do vocabulário de deputados e senadores o termo, até então, mais citado ao longo de 2015: ajuste fiscal. Na mesma semana em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou resultados nada animadores para o país — outra retração forte no PIB e mais uma disparada da inflação —, não sobrou tempo para governistas ou oposicionistas se preocuparem com contas públicas.
Sem atenção necessária do Congresso, mergulhado em conflito político, economistas, acadêmicos e analistas de mercado avisam: a tormenta que assola a economia brasileira deve piorar em 2016, e o azul no horizonte pode estar mais distante do que se imaginava. Está cada vez mais difícil para o grande barco Brasil navegar em águas turbulentas e sob impacto de dados negativos que mais parecem ondas, vento e chuva.
O contido otimismo observado no início do ano com posse de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda foi se desfazendo ao longo dos meses com a dificuldade de aprovar mudanças consideradas fundamentais. Se em janeiro a expectativa do mercado era de que a economia ficasse praticamente estagnada, com modesto avanço de 0,15% em 2015, em dezembro as projeções são de retração de 3,5%, a maior em 25 anos. Se naquela época empresários já se despediam felicitando 2016, hoje desejam Feliz 2018 e há quem espere por 2019 com ansiedade.
“As coisas mudaram após a prisão do senador Delcídio Amaral. O debate em torno do impeachment, que aparentemente havia sido superado, tomou conta. Se havia dificuldade em discutir medidas, como a reforma da Previdência, hoje isso sequer conversado. O fundo do poço, espera-se, será em 2016. Resolvido o conflito político, é mais fácil a recuperação da confiança do setor privado”, afirma Roberto Elerry, professor da Universidade de Brasília.
Contração nos próximos trimestres
Com o cenário turbulento, é difícil fazer uma previsão segura de quando a economia de fato deixará de piorar. É mais fácil identificar o ritmo da queda, que deve ocorrer de forma mais lenta no próximo ano. A expectativa é de que o PIB volte a ficar acima de zero e a inflação retorne para dentro da meta do governo em 2017. Isso se o conflito político amainar na largada de 2016.
Se é verdade que a turbulência vivida hoje é reflexo de escolhas ruins nos últimos anos, também é fato que o cenário externo está longe de ser favorável — como já foi. A retomada dependerá de dois pontos relevantes: o tamanho da desaceleração da China, principal cliente de matérias-primas brasileiras, e a mudança na política monetária americana.
PIB em queda
Os dois movimentos são tidos como certos mas ainda há dificuldades para medir os impactos efetivos no Brasil. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta avanço asiático de "apenas" 6,5%, o menor em décadas, e a presidente do banco central dos Estados Unidos, Janet Yellen, sinalizou que, com a "boa performance" da economia americana, o juro pode subir nesta semana, causando mais pressão sobre o câmbio aqui.
Isoladamente, 2015 será o terceiro ano mais desastroso para economia brasileira — só 1981 e 1990 foram piores. Se observado o comportamento trimestral, a preocupação aumenta. Nos últimos oito trimestres, houve recuo da atividade econômica em seis, indicando que a crise atual é mais estrutural que as anteriores, em geral mais agudas. Lembra a situação de países que enfrentam situações de guerra, como Rússia (-3,8%), Iêmen (-2,2%) e Ucrânia (-5,5%), conforme projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para 2015.
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"O cenário de 2015-2016 é completamente diferente de 2002-2003, quando houve problemas fiscal e com câmbio. A China desta vez se retrai e pode até entrar em choque. Se subirmos mais o juro, como em 2002, a iniciativa privada entra em colapso. A solução passa necessariamente por organização das finanças públicas e corte nas despesas ditas obrigatórias”, afirma o economista Paulo Rabello de Castro.
Pioram as projeções
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Coordenador do Movimento Brasil Eficiente, Castro sugere que o governo deixe de dar "reajustes inflacionários a certas castas" e pare de cortar investimentos.
A solução ideal varia conforme a cartilha ideológica, mas economistas de diferentes matizes concordam que são necessários ajustes. A discordância refere-se à intensidade das medidas de correção. Em mar revolto, força a mais ou força a menos pode fazer o barco virar.
Retomada do crescimento somente em 2017
O que dois anos atrás parecia um simples quadro de desaceleração econômica logo passou a ser encarado como período de estagnação. Depois, veio a chamada recessão "técnica". Agora, o risco, apontam economistas, é que o país caminhe para depressão mais profunda, embora ainda haja certa dificuldade de conceituar quando uma se torna a outra.
Entre as poucas certezas está a que 2016 será outro ano de recuo no Produto Interno Bruto (PIB) — será a primeira vez que o país registra dois anos seguidos de contração na economia (a série histórica oficial, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística tem início em 1948). Mas não há como garantir que seja o fundo do poço, apesar de a maioria das projeções de analistas e consultorias apontar o segundo semestre de 2017 como início de uma recuperação.
“O mais preocupante é a forte queda da formação bruta de capital (o investimento), que compromete o crescimento futuro. Se não houver uma reação, a queda do PIB tende a ser ainda pior do que se espera hoje”, alerta Thaís Marzola Zara, que coordena o departamento de macroeconomia da Rosemberg & Associados.
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Evidentemente, as projeções de analistas estão sujeitas a constantes revisões e mudanças. O problema é que realmente ainda não há sinais encorajadores para quem pretende exercitar o otimismo. Nos últimos dois trimestres, com as dificuldades do governo em aprovar medidas de ajuste e retomar a confiança do empresariado, bancos e consultorias passaram a revisar as próprias estimativas para baixo. Por enquanto, o impeachment ainda não faz parte do cenário-base, mas a percepção é que a solução para o conflito político será positiva para a economia e que 2017 não deve ser tão contagiado pelo pessimismo quanto 2016.
“Só o efeito estatístico já garante 2,2 pontos percentuais a menos de PIB no próximo ano. É o chamado carry over, que ocorre pelo fato de o resultado do PIB ser calculado por meio de uma média. Assim, como os últimos trimestres de 2015 devem estar abaixo da média do ano, 2016 já começa no terreno negativo”, afirma Thiago Curado, da consultoria 4E.
Fábricas ainda em retração
Quando a economia brasileira ainda navegava em um mar de tranquilidade e sequer se pensava em crise, a indústria foi o primeiro setor a dar sinais de que algo não andava tão bem. Enquanto agropecuária e serviços avançavam, a produção industrial estacionou e, de 2011 para cá, só recuou. A expectativa é de que continue andando para trás também em 2016.
O aumento de custos ao longo do ano tem sufocado ainda mais a produção, que, no acumulado de 2015, já caiu 11%. Energia mais cara e alta no custo de insumos, por conta da valorização do dólar, tornam-se uma pressão extra em um setor fragilizado.
“Desde 2008, a vida do empresário de indústria não tem sido fácil. Mas, antes, o problema era em parte compensado pelo volume robusto de investimento externo, o que não tem acontecido mais. Continuamos não inseridos em grandes cadeias globais e reféns de problemas estruturais, que minam a possibilidade de solução no curto prazo”, avalia Julio Sergio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica e um dos maiores especialistas do tema no país.
A chance de fôlego maior está no dólar alto, mas o efeito é limitado. Empresários reclamam da oscilação forte da moeda, o que impede planejamento de investimentos de médio e longo prazo.
“A desvalorização do real acaba por não compensar outros fantasmas do setor industrial, como a falta de acordos comerciais. O horizonte ficou muito resumido ao mercado interno”, afirma o economista Marcos Troyjo, diretor do BricLab, na Universidade de Columbia, em Nova York.
Sem vagas e com salário menor
Em alta desde o início do ano, o desemprego já chega a 7,9% da população economicamente ativa em 2015 — o dado mais recente é de outubro. Fechamento de vagas temporárias após festas de final de ano deve ajudar a empurrar a taxa a dois dígitos em 2016.
O corte de postos de trabalho, que afetou até agora principalmente a indústria (há perda de empregos em todos os 18 ramos pesquisados pelo IBGE), deve aparecer com mais força também no comércio, que demonstra uma diminuição da resistência à recessão. O professor Anselmo Santos, do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp, chama atenção para a redução do salário médio.
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"Tem havido demissões de um lado e as contratações que ocorrem tem sido com salários menores. A taxa de desemprego mostra caráter perverso da crise, mas de certa forma também mascara a perda de poder aquisitivo das pessoas. É ainda pior do que parece", afirma Santos.
Família reduz consumo
Economista e professor da PUC-Rio, José Márcio Camargo diz que pode ocorrer uma recuperação leve só a partir de 2017 e que, antes disso, a taxa de desemprego continuará a subir
"Devemos terminar o próximo ano com desemprego em torno de 11% ou mais se a crise política instalada em Brasília se arrastar por um período mais prolongado. Acho difícil o governo conseguir segurar, pelo fato de que a confiança dos empresários já caiu de tal forma que ninguém hoje está disposto a investir. Se não for feito o ajuste, a inflação vai subir e os salários vão cair. Não tem muito como fugir disso", descreve Camargo.
Essencial é segurar alta de preços
Após ultrapassar 10% em 12 meses, a inflação passa a ser um dos problemas mais delicados para a equipe econômica nos próximos meses. Se adotar a estratégia errada agora, avaliam especialistas, o Banco Central (BC) pode permitir uma nova disparada nos preços em 2016 ou aprofundar a recessão sem necessidade.
A questão que separa economistas de diferentes vertentes ideológicas também divide os diretores do BC, indica a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom): a recessão fará com que os preços avancem naturalmente de forma mais lenta ao longo de 2016 ou será preciso continuar elevando o juro para que isso ocorra?
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Depois de sete altas consecutivas, o BC tem optado, desde setembro, por manter a taxa em 14,25%, mas a aceleração forte dos preços em outubro e novembro tem reforçado o argumento dos críticos.
"Se a existência de recessão fosse condição suficiente para estabilização de preços, não teríamos inflação recorde na década de 1980. O BC tem tido duas limitações importantes que o impedem de aumentar a taxa: a recessão e a dívida pública. Aceita essa paralisia, que é real, precisamos pensar em alternativas", afirma Monica de Bolle, doutora em economia pela London School of Economics e pesquisadora do Peterson Institute, que sugere o uso da taxa de câmbio como uma opção.
Se o recuo econômico não foi suficiente para aplacar o ritmo da inflação, tampouco fez efeito o forte aumento de juro, já que grande parte da alta veio do reajuste das tarifas administradas pelo governo, lembra José Luiz da Costa Oreiro, professor de economia da UFRJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira. Para ele, continuar elevando a Selic só vai causar depressão econômica.
Uma alternativa seria o BC adotar uma "meta ajustada de inflação" para 2016 e 2017. A ideia seria suavizar a trajetória do IPCA perseguida pelo BC nos próximos anos. Isso já ocorreu entre 2003 e 2005, com bons resultados.
Valorização do dólar segue e pressionará índice de inflação
"Taxa de câmbio é invenção de Deus para humilhar economistas." A frase, bastante comum entre acadêmicos e analistas que acompanham a área, exemplifica bem a dificuldade que especialistas têm de prever com certa segurança o comportamento do dólar. Apesar disso, não há quem ouse dizer que o preço da moeda americana cairá ao longo dos próximos meses. As dúvidas resumem-se basicamente à altura do topo e à capacidade do Banco Central (BC) de suavizar a escalada.
A mais recente projeção do mercado financeiro é de que a moeda chegue ao final de 2016 valendo R$ 4,20, aproximadamente 10,5% a mais do que hoje, mas especialistas em câmbio arriscam dizer que o valor possa chegar a R$ 5, depois de confirmada a perda de grau de investimento do país por agências de classificação de risco. No meio da semana, a Moody's anunciou que está em processo de revisão da nota brasileira, seguindo o caminho já trilhado pela Standard & Poor's em setembro.
“O downgrade do país seria um tranco forte neste momento de absoluto caos na economia. Somado ao aumento do juro americano, vai estimular a saída de recursos de qualidade do mercado financeiro e, ao mesmo tempo, provocar a contração dos ingressos, mesmo aqueles para o setor produtivo”, avalia Sidnei Moura Nehme, economista e diretor-executivo da NGO Corretora.
Se as turbulências domésticas vêm afastando investidores estrangeiros, nos próximos meses é a possibilidade de aumento de juro americano, cada vez mais concreta, que assusta. Apesar de o BC ter instrumentos para suavizar a alta do dólar, boa parte das reservas cambiais está comprometida com mecanismos adotados nos últimos meses. Atualmente, o BC tem cerca de R$ 110 bilhões negociados em contratos no mercado futuro.
“O governo pode tentar estabilizar o barco, içando velas, distribuindo melhor o peso, mas não vai conseguir mudar a direção da maré. Levando em conta que o câmbio interfere na inflação no curto prazo, o BC deve dar atenção especial ao assunto”, resume João Ricardo Costa Filho, economista da consultoria Pezco Mycroanalysis

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